“É só aprender a conviver.” Essa é a resposta que milhões de brasileiros com zumbido no ouvido recebem quando buscam ajuda médica pela primeira vez. E embora ela contenha uma parcela de verdade em casos específicos, ela também deixa de fora informações importantes sobre o que a medicina atual oferece para quem convive com esse sintoma.
O zumbido no ouvido, conhecido tecnicamente como tinnitus, é um dos sintomas auditivos mais prevalentes na população acima dos 60 anos. Estima-se que entre 15% e 20% dos adultos experimentam alguma forma de zumbido, e a incidência aumenta significativamente com a idade.
Entender o que causa o zumbido, quando ele é sinal de algo tratável e quais abordagens têm evidência real de benefício é o primeiro passo para sair da resignação e entrar no cuidado.

O Que É o Zumbido no Ouvido
O zumbido no ouvido é a percepção de um som que não tem fonte externa. A pessoa ouve um ruído, uma campainha, um apito, um chiado ou um zumbido constante ou intermitente, mas esse som não existe no ambiente ao redor. Ele é gerado pelo próprio sistema auditivo.
O mecanismo mais aceito pela comunidade científica atual envolve uma resposta do cérebro à redução de sinais auditivos provenientes do nervo auditivo. Quando as células ciliadas do ouvido interno se desgastam e passam a transmitir menos informação ao cérebro, o sistema nervoso central começa a gerar sua própria atividade para compensar o silêncio auditivo. Essa atividade gerada internamente é o que a pessoa percebe como zumbido.
Isso explica por que o zumbido no ouvido e a perda auditiva aparecem com tanta frequência juntos, especialmente em pessoas acima dos 60 anos.
Zumbido Pontual e Zumbido Crônico: Uma Diferença Fundamental
Antes de qualquer conversa sobre tratamento, é importante distinguir dois perfis completamente diferentes de zumbido.
Zumbido Pontual
O zumbido pontual é aquele que aparece após exposição a ruído intenso como um show, uma explosão ou maquinário barulhento, que dura horas ou alguns dias e desaparece espontaneamente. Ele indica que as células ciliadas foram temporariamente sobrecarregadas, mas não necessariamente danificadas de forma permanente. Em geral não requer tratamento específico além de repouso auditivo.
Zumbido Crônico
O zumbido crônico é aquele que persiste por mais de três meses, seja de forma contínua ou com episódios frequentes. Esse é o perfil que merece investigação profissional detalhada, pois pode indicar perda auditiva instalada, impactação de cerúmen no canal auditivo, alterações vasculares, uso de medicamentos ototóxicos ou outras condições que têm tratamento específico.
Ignorar o zumbido crônico por considerá-lo “normal da idade” é um dos erros mais comuns e com consequências mais sérias para a saúde auditiva e para a saúde do cérebro na terceira idade.

O Que Causa o Zumbido no Ouvido
O zumbido no ouvido é um sintoma, não uma doença. Isso significa que ele tem causas identificáveis que precisam ser investigadas antes de qualquer decisão de tratamento. As causas mais comuns em pessoas acima dos 60 anos incluem as descritas abaixo.
Perda auditiva relacionada à idade
A presbiacusia é a causa mais frequente de zumbido no ouvido crônico em pessoas acima dos 60 anos. O desgaste gradual das células ciliadas reduz os sinais enviados ao cérebro pelo nervo auditivo, desencadeando o mecanismo de geração interna de som descrito anteriormente. Nesse caso, o tratamento da perda auditiva com aparelho auditivo frequentemente reduz ou elimina o zumbido ao restaurar o fluxo de informação auditiva ao cérebro.
Impactação de cerúmen
A rolha de cera no canal auditivo é uma causa tratável e muitas vezes subestimada de zumbido no ouvido. A remoção profissional do cerúmen resolve o zumbido em grande parte dos casos em que essa é a causa principal.
Medicamentos ototóxicos
Diversos medicamentos de uso comum na terceira idade têm potencial ototóxico, ou seja, podem causar dano ao ouvido interno como efeito colateral. Anti-inflamatórios em doses altas, alguns antibióticos, diuréticos e medicamentos para pressão arterial estão nessa lista. O zumbido no ouvido que aparece após início de um novo medicamento sempre merece ser comunicado ao médico prescritor.
Alterações vasculares e pressão arterial
A hipertensão arterial e problemas de microcirculação afetam diretamente o fluxo sanguíneo para o ouvido interno. O zumbido no ouvido de origem vascular frequentemente piora em momentos de estresse ou quando a pressão arterial está descontrolada. O controle adequado da pressão é parte do tratamento nesses casos.
O Que a Medicina Atual Oferece Como Tratamento
Aqui está a informação que a frase “aprenda a conviver” frequentemente omite: existem abordagens com evidência real de benefício para o zumbido no ouvido crônico. Nenhuma delas é uma cura universal, mas todas podem reduzir significativamente o impacto do zumbido na qualidade de vida.
Terapia Sonora
A terapia sonora utiliza sons externos de baixa intensidade para reduzir o contraste entre o silêncio do ambiente e o zumbido no ouvido, tornando-o menos perceptível. Pode ser feita com dispositivos geradores de ruído branco, aplicativos específicos ou com o próprio aparelho auditivo em modelos que incorporam essa função.
Aparelho Auditivo com Função de Mascaramento
Quando o zumbido no ouvido está associado à perda auditiva, o aparelho auditivo moderno é frequentemente o tratamento mais eficaz para os dois problemas simultaneamente. Ao restaurar o estímulo auditivo externo, ele reduz a necessidade do cérebro de gerar atividade interna compensatória. Muitos modelos atuais incluem programas específicos de mascaramento de zumbido, que podem ser ativados e ajustados pelo fonoaudiólogo.
Terapia de Reabilitação do Tinnitus (TRT)
A TRT é uma abordagem estruturada que combina aconselhamento diretivo com terapia sonora de longo prazo. Seu objetivo não é eliminar o zumbido no ouvido, mas treinar o sistema nervoso a classificá-lo como um sinal neutro, sem relevância emocional, de forma que ele passe a ser ignorado automaticamente pelo cérebro. Estudos clínicos mostram redução significativa do incômodo em 80% dos pacientes após 18 meses de TRT.
Suplementação Direcionada
Em casos onde exames identificam deficiência de zinco ou vitamina B12, a reposição desses nutrientes tem evidência de benefício para o zumbido no ouvido em subgrupos específicos de pacientes. A suplementação sem diagnóstico prévio de deficiência não tem a mesma eficácia.

Quando Procurar Avaliação Urgente
A maioria dos casos de zumbido no ouvido crônico não representa emergência médica, mas alguns padrões merecem avaliação prioritária. Procure um otorrinolaringologista ou médico com urgência se o zumbido aparecer em apenas um ouvido e persistir por mais de uma semana, se vier acompanhado de perda auditiva súbita, se houver tontura intensa associada, ou se o zumbido tiver ritmo pulsátil sincronizado com os batimentos cardíacos.
Antes de se desesperar com o zumbido, é preciso investigar fatores cardiovasculares silenciosos. Existe uma ligação perigosa entre pressão alta e zumbido que muitos médicos não explicam.
Esses padrões podem indicar condições que exigem investigação mais detalhada e intervenção específica.
O Primeiro Passo Concreto
Para a maioria das pessoas acima dos 60 anos com zumbido no ouvido crônico, o caminho mais inteligente começa com o exame de audiometria. Ele identifica se existe perda auditiva associada ao zumbido, qual é seu grau e perfil, e fornece a base para que o especialista em fonoaudiologia ou otorrinolaringologista defina a abordagem mais adequada.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o diagnóstico precoce é o fator que mais influencia os resultados do tratamento auditivo. Isso se aplica tanto à perda auditiva quanto ao zumbido no ouvido associado a ela.
Conviver com zumbido não precisa ser o destino. Para muitas pessoas, é o ponto de partida de um cuidado que muda de forma significativa a qualidade de vida nos anos seguintes.
O zumbido no ouvido pode ter uma causa tratável que ainda não foi investigada. Uma avaliação auditiva completa é o primeiro passo para descobrir.
